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7 de novembro de 2008

RH X CRISE INTERNACIONAL


Confesso que possuo poucos conhecimentos em economia, mas como boa parte dos brasileiros estou preocupada. Neste momento conturbado, em que o mundo voltou seus olhos para as negociações das bolsas, eu também me pergunto: Qual o real tamanho dessa crise? Quanto tempo ela vai durar? Como as empresas serão afetadas? E o meu emprego?

Com tantas dúvidas resolvi pesquisar, me informar, e posto aqui minhas impressões.

Apesar das análises dos especialistas não temos respostas exatas para essas perguntas, entretanto, mesmo sem prever o futuro, é possível levantar hipóteses estudando o passado.

A Grande Depressão de 1929, que teve seu início com a redução da produção industrial americana, e consolidou-se com a queda das bolsas de Nova Iorque e New York Stock Exchange, trouxe para todo o mundo a elevação da inflação, a queda do PIB, a baixa nos preços das ações, a redução das atividades econômicas e, inevitavelmente, o desemprego.

Essa crise persistiu até a década de 30, fechando inúmeras empresas e deixando milhões desempregados, e terminou cerca de três anos depois com o New Deal, uma série de políticas econômicas adotadas por Rosevelt, presidente dos EUA da época. O Brasil viveu a crise de 1929 por meio de uma desordem econômica causada pela queda dos preços do café, sua única comódite no período.

Em 1973 passamos por um outro momento crítico com a crise do petróleo. Iniciada com o déficit de oferta, e com a nacionalização de vários conflitos, os preços do barril atingiram valores astronômicos, causando recessão nos EUA e consequentemente uma desestabilização mundial com a alta dos juros. Dividida em cinco fases, a última delas ocorreu neste ano, com o aumento de 100% do preço do barril no período de Janeiro a Julho.

Assustamos-nos com a crise do México em 1994, ano de implantação do Plano Real. Mais um susto com a crise dos Tigres Asiáticos entre os anos de 1997 e 1998, mesmo período da crise russa, quando o Brasil perdeu milhões. Com a crise da Argentina em 2001 não foi diferente, ano dos ataques de 11 de setembro, que também afetaram as bolsas. E cá estamos nós, em meio a mais uma crise!

No início desta década os juros baixos nos EUA incentivaram empréstimos em que as residências eram a garantia do negócio. Os juros atrativos fomentaram o crédito imobiliário, e a oferta de casas desvalorizou os imóveis. Com juros mais altos que o normal esse tipo de empréstimo endividou milhões de americanos que, com seus imóveis hipotecados, não têm como saldar seus compromissos. Essa inadimplência prejudicou outros setores devido à baixa do consumo, comprometendo toda a economia.

E o resto da história nós já conhecemos...

Como o destino é incerto, algumas empresas assumiram uma postura preventiva, adotando medidas de redução de custos: férias coletivas, diminuição na produção, redução de matéria prima, produtos, investimentos e pessoal. Essa postura conservadora pode acarretar uma negativa reação em cadeia no mercado, iniciada pelas grandes organizações.

Vulneráveis, e com muitas dúvidas, penso que nós, trabalhadores, deveríamos adotar a mesma postura das organizações: cortar custos, evitar compras a prazo, fugir dos juros altos, etc. Em resumo, poupar, mesmo com todas as medidas que estão sendo tomadas para se evitar um “efeito dominó” na economia.

Na análise das organizações o custo de pessoal é o mais visado, por ser o mais representativo. Em empresas prestadoras de serviço, por exemplo, a folha de pagamento pode representar 75%. Bom, aí a demissão torna-se inevitável, e nesses casos vão embora os funcionários que já estavam na “corda bamba”: aqueles que não apresentam um bom desempenho, os “reclamões”, os que possuem problemas de relacionamento, aqueles que sempre apresentam atestado médico, ou mesmo os recentemente admitidos. Para esses casos, a desculpa para a demissão pode ser a “conjuntura econômica”.

Mas os bons funcionários não podem se acomodar, pois no caso de uma grande recessão eles também podem ser demitidos, e a conjuntura econômica não será mera desculpa.

Pense: você faz falta para a empresa em que trabalha? Qual importância você tem para a instituição? É preciso avaliar nosso risco, e se formos importantes, boa notícia: mesmo em situação de crise as empresas procuram manter os melhores funcionários.

Na última semana, em conversa com um executivo de RH do mercado financeiro, ouvi a seguinte frase: “Precisamos manter as cabeças para pensarmos e nos planejarmos para quando o mercado estiver aquecido”. Ou seja, a crise vai passar, e a empresa precisa estar pronta para esse momento, e para isso é mais fácil manter os funcionários que contribuem para a estratégia organizacional do que iniciar um grande processo seletivo.

Nas crises anteriores o mercado se recuperou com a estabilização da economia americana, e isso pode voltar a acontecer, considerando o resultado da eleição presidencial nos EUA. Logo após a eleição de Obama houve uma pequena recuperação do mercado asiático, o mais afetado até agora por depender demasiadamente do consumo norte-americano, o que pode ser um indício de melhora, mas também de euforia, ainda não sabemos.

Com tudo isso, o conselho do RH para os profissionais é “seja prudente”: aguarde o reaquecimento do mercado para mudar de emprego, abrir o próprio negócio ou fazer investimentos. E se por acaso ficar desempregado neste período, não se acanhe em aceitar uma proposta de emprego temporário, mesmo que não seja na sua área. Quando as coisas melhorarem as empresas darão preferência para quem não ficou parado.

No mais, nos resta esperar. Esperar, do latim sperare. Estando à espera, com esperança...

Nossa única certeza: “isso também vai passar”.
Imagem: Getty Images

6 de novembro de 2008

"CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS"

Foto By Max G Pinto

Recentemente a revista "Isto É" publicou a entrevista que Camilo Vannuchi fez com o psiquiatra e psicoterapeuta Roberto Shinyashiki, autor de vários livros.

Longe de ser uma lição de auto-ajuda, na entrevista Shinyashiki combate a supervalorização das aparências, e diz que ao Brasil falta competência, e não auto-estima.

O autor também comenta os jogos de aparência que tomaram conta das corporações e das famílias: “O mundo precisa de pessoas mais simples e verdadeiras”.

Leia a entrevista abaixo.


ISTOÉ
– Quem são os heróis de verdade?
Shinyashiki – Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoade sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado,viajar de primeira classe. O mundo define que poucas pessoas deram certo. Issoé uma loucura. Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários quenão chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas como uma multidãode fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de quenão valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida,e não para impressionar os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ – O sr. citaria exemplos?
Shinyashiki – Dona Zilda Arns, que não vai a determinados programas de tevê nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana. Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ – Qual o resultado disso?
Shinyashiki – Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece. A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ – Por quê?
Shinyashiki – O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência. Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ – Há um script estabelecido?
Shinyashiki – Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um presidentede multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu defeito?” Todosrespondem que o defeito é não pensar na vida pessoal: “Eu mergulho decabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar.” É exatamente o que o chefequer escutar. Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizadoou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesmaforma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.O vice-presidente de uma das maiores empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir.” Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ – Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki – Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados. Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado. Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ – Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki – Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas parece que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ – Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki – Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta. O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: “Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham.” Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ – O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki – Exatamente. A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram. A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ – É comum colocar a culpa nos outros?
Shinyashiki – Sim. Há uma tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém. Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas as empresas definem uma meta de crescimento no começo do ano. O presidente estabelece que a metaé crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem que é factível e os vendedores já partem do princípio de que a meta não será cumprida e passam a buscar explicações para, no final do ano, justificar. A maioria das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta a evolução do setor. É uma chutação total.

ISTOÉ – Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki – Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos). Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros. Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu. Não preciso mentir.

ISTOÉ – Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki – O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas. A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards. Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ – Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki – A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade. A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais. A segunda loucura é: “Você tem de estar feliz todos os dias.” A terceira é: “Você tem que comprar tudo o que puder.” O resultado é esse consumismo absurdo. Por fim, a quarta loucura: “Você tem de fazer as coisas do jeito certo.” Jeito certo não existe. Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Você precisa ser feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.

ISTOÉ – O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
Shinyashiki – Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.” Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na horada morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis. Uma história que aprendi na Índia me ensinou muito. O sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo. Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior sufoco, o sujeito olha parao lado e vê um arbusto com um morango. Ele pega o morango, admira sua belezae o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.

12 de setembro de 2008

CONVERSA COM EMPRESÁRIOS


Leitora de Rubem Alves, divido com vocês o texto "Conversa com Empresários". Nele o autor, sempre de forma delicada, aponta os movimentos, ou fases, vividos pelas empresas nas últimas décadas.

"A filosofia das empresas passou por três fases.

A primeira é representada pelo filme Tempos Modernos, de Chaplin - em que a única coisa que interessava às empresas era o lucro: nenhuma preocupação com a vida dos empregados, que eram tratados como engrenagens de uma máquina; nenhuma preocupação com o meio ambiente, que podia ser degradado impunemente. É a empresa 'máquina'.

A segunda fase está descrita no livro The Organization-Man, de Whyte Jr. - em que a empresa descobre a importância de que seus empregados se sintam bem dentro dela. Fazem-se todos os esforços no sentido de que eles tenham relações harmoniosas entre si e se identifiquem afetivamente com os interesses da empresa. A empresa deve ser o mundo do empregado e a imaginação do empregado deve estar restrita ao mundo da empresa. É a empresa 'família', auto-suficiente e fechada em si mesma.

A terceira fase, que é a que estamos vivendo no momento, se caracteriza por uma revolução de valores. Se, na primeira e na segunda fases a empresa olhava para o mundo exterior apenas como 'mercado', isto é, lugar do lucro, agora ela olha para o mundo exterior como um espaço de vida de que é preciso cuidar. Às relações comerciais agrega-se agora uma dimensão ética: o cuidado com o meio ambiente, a cultura, a educação, o bem-estar, não só dos empregados mas de toda a comunidade que a cerca.

A empresa se descobre como companheira, junto com outros homens, de um espaço comum que deve ser objeto de cuidado, pois o que está em jogo é a qualidade de vida. É a empresa 'cuidadora' ou, se quiserem, numa linguagem poética, empresa "jardineira"...

Gosto da imagem da jardinagem como metáfora para essa relação de cuidado com o meio ambiente e com as relações entre as pessoas. Isso quer dizer que, ao lado do motivo financeiro 'lucro' as empresas estão trabalhando sob motivos éticos.

Penso que os empresários, como "regentes de orquestra", poderiam pensar um programa educativo para os seus 'músicos' em três movimentos:

Primeiro movimento: 'A empresa: lugar bom de se viver'.

Segundo movimento: 'A empresa: lugar bom de se pensar...'.

Terceiro movimento: 'A empresa: cuidadora do mundo'
."

Imagem: http://blogdagi.files.wordpress.com/2008/06/rubem.jpg

6 de agosto de 2007

DIFERENÇA? QUE DIFERENÇA?


A Lei 8.213 estabeleceu uma série de cotas para que as empresas privadas contratassem profissionais portadores de deficiência (PPD), e trouxe uma delicada discussão para o mercado de trabalho: o preconceito.

A existência de uma lei que enfoca o direito de trabalho para as pessoas portadoras de deficiência gera em mim certo desconforto, além de um grande questionamento: pessoas fisicamente perfeitas são mais dignas e merecedoras de mais direitos? Julgar a competência profissional sob a ótica da perfeição física deveria ser tratado como deficiência moral, como invalidez de espírito.

A reflexão acerca da condição do PPD no mercado partiu da leitura que fiz de um antigo texto veiculado pela AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), e que não deve ser esquecido:

Só porq_ _stá faltando uma l_tra, voc_ não d_ixou d_ compr_ _ nd_r. O t_xto não d_ixou d_ faz_r s_ntido. Não d_ixou d_ s_r um t_xto. As outras l_tras, solitárias, ganharam força _ comp_nsaram a falta d_ uma l_tra. Com o portador d_ d_fici_ncia acontec_ igual. Cada part_ do corpo d_l_ foi mais tr_inada do qu_ a sua. A intelig_ncia fica mais visív_l. A inspiração nasc_ mais fácil _ o ajuda a l_ evar uma vida normal. O corpo _ só um m_io d_ locomoção. Aquilo qu_ mais int_r_ssa na vida não falta: força d_ vontad_.
Imagem: Getty Images

4 de junho de 2007

INSIGHT >>> Tempos Modernos


Tempos Modernos, último filme mudo do diretor e ator Charles Spencer Chaplin, tornou-se um clássico na história do cinema, retratando a vida urbana nos Estados Unidos após a crise de 1929 que levou boa parte da população ao desemprego e à fome.

Hoover, presidente dos Estados unidos no período da crise, desconsiderou as necessidades da camada mais pobre da população, tentando ajudar as grandes empresas capitalistas, atitude que intensificou a luta das classes. Em 1932, já tendo como presidente Roosevelt, os Estados Unidos ganhou o New Deal, plano de recuperação da economia e combate ao desemprego.

É neste contexto que Carlitos, célebre personagem de Chaplin, vive as aventuras de um operário de uma grande indústria, que mais tarde transforma-se em um líder grevista.

Focalizando a vida da sociedade industrial da época, o filme reproduz, de forma cômica, a filosofia taylorista, baseada na produção, no estudo dos tempos e movimentos, no quadro de tarefas e no desenho de ferramentas. A administração científica de Taylor, que destruía a iniciativa pessoal do empregado, reduzindo-o a condição de engrenagem, foi inusitadamente desnudada por Chaplin.

Com toda sua singularidade, neste roteiro Chaplin trouxe à tona a minimização dos aspectos psicossociais da condição humana da época, bem como o esgotamento físico decorrente da ânsia do operário em finalizar sua tarefa em um tempo inferior ao previsto, a fim de aumentar seus rendimentos.

Através de cenas bem humoradas, temperadas com certa acidez, Chaplin revelou um operário robotizado, que não ia além de um apêndice da máquina, um mero executor de processos para ele desconhecidos. A alienação da atividade e do objeto acabava por destituir o sujeito, agora um “homem aniquilado”, escravizado pela máquina.

De forma geral, o filme é uma crítica à modernidade, ao capitalismo, à industrialização e à desigualdade social

Acredito que Tempos Modernos, mais que uma crítica às transformações sociais e culturais oriundas da Revolução Industrial ocorrida no século XVIII, bem como ao modo de produção fabril, revela-nos a ambigüidade do desenvolvimento econômico-financeiro, que não traz a salvação dos problemas humanos. Escravizado e aniquilado pela técnica, o homem perde sua identidade funcional, tornando-se “pobre de espírito”, incapaz de ações criativas e vulnerável às doenças laborais.